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O bom vinho brasileiro e o complexo de vira latas



Há muito tempo eu sou apreciador de vinhos e todos que me conhecem pessoalmente sabem que eu só compro vinho nacional e de qualidade. É lógico, se me oferecem um importado eu tomo, sem qualquer restrição.

Os obstáculos que o vinho nacional encontra pela frente são enormes e eu posso testemunhar isso. Os rótulos mais vendidos no Brasil são os famosos argentinos e chilenos. Dentre os mais vendidos, a grande maioria tem qualidade inferior aos brasileiros razoavelmente qualificados.

É isso mesmo, o vinho brasileiro tem perdido lugar por puro preconceito por parte do consumidor...brasileiro.

E a injustiça nesse campo é enorme. Os bons conhecedores de vinhos finos devem saber do que estou escrevendo.

Qualquer pessoa mais ou menos interessada no tema da enologia sabe muito bem que vinho tinto de qualidade tem que ser "seco", ou seja, não pode ter açúcar adicionado. A adição de açúcar é uma estratégia muito usada para "mascarar" uma vinificação deficiente ou até mesmo uma uva que não tenha atingido boa maturidade.

Pois bem, aí vai a "bomba": grande parte dos vinhos chilenos e argentinos mais vendidos e "famosos" do mercado não são "secos", são "demi-sec" ou "meio seco", "meio doce" ou seja lá como for como preferirem.

Acontece que os rótulos argentinos e chilenos (entre estes os da Concha y Toro e Santa Helena) não têm a obrigação governamental de mostrar claramente se há adição de açúcar ou não. Esse "detalhe" às vezes só aparece nas letras (bem) pequenas do rótulo posterior da garrafa.

Com o vinho nacional, não é assim. No Brasil, o governo estipula que o produtor identifique claramente se o vinho é seco ou não. Esse é apenas mais um aspecto da desigualdade de competição, até o nosso governo é mais "caxias" do que outros. Pelo menos o consumidor do vinho brasileiro não é induzido ao erro, isso é para se valorizar.

Mas é esse o resultado: a grande maioria dos que apreciam vinho, muitas vezes recusam um produto brasileiro de excelente qualidade e levam para casa um vinho estrangeiro "meio seco". E ainda podem acreditar que está levando a melhor opção possível.

E isso não é tudo. Sempre reparo no marketing eficiente dos rótulos estrangeiros no Brasil. Eles conquistam mais espaço nas gôndolas, os críticos sempre ressaltam a qualidade dos importados.

Ainda hoje, "nas boas casas do ramo", os vinhos brasileiros são mais facilmente encontráveis naqueles cantos mais escondidos. Eu brinco com os atendentes e já vou perguntando onde fica o "gueto dos brasileiros" na loja.

A injustiça que se faz contra o bom vinho nacional chega a ser revoltante. Vejamos o caso dos vinhos espumantes. Os bons espumantes brasileiros ganham de longe dos importados. O quesito custo/benefício tende completamente para a escolha dos bons nacionais. Nesse tema, até os franceses sabem que as condições naturais favorecem e muito o Brasil e não é a toa que a Moët & Chandon escolheu há décadas a nossa terra a fim de produzir um excelente produto. Sem falar na excelência de tantas outras marcas legitimamente nacionais.

Quem sabe, quando até a nossa elite se desprender do "complexo vira lata" poderemos ver nas mesas dos restaurantes brasileiros aquilo que vemos nas mesas dos congêneres argentinos, uruguaios, chilenos, franceses e italianos: a predominância do bom e conhecido vinho nacional.

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Arnaldo Jabor fala bobagens





Arnaldo Jabor fala bobagens ao comentar o ingresso da Venezuela no Mercosul aprovado pelo Senado brasileiro. Começando por uma análise onde sutilmente diz que o Mercosul não faz parte do mundo.

"Vamos combinar que o Mercosul já é uma droga. Até hoje só atrapalhou negociações comerciais do Brasil com o mundo ou serviu de palco para provocações do pós peronismo argentino."

O Jabor vale-se de uma artimanha comum a todos que falam na TV onde ninguém lhe pode interromper ou rebater as asneiras que ele mesmo diz. Seguidor da linha editorial da Globo, não considera que a América do Sul faça parte do mundo. Na verdade ele não se refere a nada. A arte de falar na TV (para o Jabor) é usar pouco tempo para falar com palavras bonitas, usar frases de efeito, lançar dúvidas, não dizer nada e esperar que a imaginação das pessoas chegue a alguma conclusão que lhe favoreça.

"Nosso Governo que se intitula de esquerda, manto bonito para vestir o Lulo-sindicalismo une-se à mais reacionária direita, em que estada no PMDB, para realizar o sonho de alguns comunistas do executivo, ou seja, a direita que comanda o atraso legitima um pré-ditador fascista que finge ser de esquerda."

Mas afinal, o Jabor está reclamando de quê? Se a visão correta da política fosse pelo lado da direita e se ele tivesse falado alguma coisa séria, estaria tudo muito bem, afinal o Governo ao se aliar à direita - na visão dele - estaria avançando. Seria muito bom também para o comentarista da Globo que o senado legitimasse um fascista que finge ser de esquerda. Ora, o Jabor está reclamando da direita?

O segredo de como falar bem na TV (na visão do Jabor) é usar o mínimo de tempo possível para falar muito, se bem que não seja necessário dizer nada. Exemplo: "para realizar o sonho de alguns comunistas do executivo". Com exceção da remota hipótese de ele estar se referindo ao Ministro Orlando Silva, uma vez que este é ministro dos esportes, que "outros comunistas" fazem parte do executivo?

"Esse Senado que foi xingado pelo Chávez como papagaio dos americanos aprovou a Venezuela. E vai arrasar assim de vez o Mercosul."

O tom é de crítica ao Senado por haver aprovado a Venezuela. Legitimar um pré-ditador fascista? Senado xingado pelo Chávez? Não quero entrar na questão do Chávez, o que está em debate é a aprovação da Venezuela. "Esse Senado" como disse o Jabor, é o Senado brasileiro que deu autorização por parte do Brasil ao Estado venezuelano, que é muito superior ao Governo Venezuelano, de ingressar no Mercosul.

Quanto ao "E vai arrasar assim de vez o Mercosul"... O Jabor não tinha combinado que o Mercosul é uma droga? Tá reclamando do que?

Depois de falar tanta coisa sem dizer nada, é sair pro abraço e ir à galera, ou seja, dar uma de terrorista e...

"Chávez vai usar o Mercosul para iranizar, talibanizar, escraxar a América Latina e o alvo principal será quem? Adivinhem. É nós. O Brasil!"

É a mesma estória que a burguesia diz de comunistas: "Eles comem criancinhas e guardam os ossos para fazer sopa à noite."

E ainda há quem dê ouvidos a tanta asneira!

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A lenta emancipação da Mulher


O comentário da Lilian França, me fez pensar no assunto... Mas as coisas são geralmente assim: nem sempre pensamos na essência da idéia que recebemos. Uma idéia nos leva a pensar em um assunto que puxa outro... A verdade é que me fizeram pensar sobre a mulher. E a pessoa que me fez pensar nesse assunto, demonstrava uma certa revolta, principalmente na questão da violência que o homem pratica contra a mulher. É verdade, ela citou casos de estupro, onde a mulher quase passa de vítima a réu quando resolve denunciar a violência.

No entanto eu quero falar num outro tipo de violência. Uma violência sutil e cotidiana, e exatamente por ser cotidiana, torna-se quase tão horrenda quanto um estupro: a violência praticada pelo homem contra a mulher. Cotidiana, silenciosa (às vezes), e o que é pior, tida por muitas (mulheres inclusive) como comportamento normal.

Desde que o mundo é mundo, a mulher é vista como uma "cuidadeira" de crianças, "tomadeira" de conta da família e "preparadeira" de comida da família. Uma vez que o homem, alega não levar jeito para cuidar de crianças, não saber preparar a comida, não saber limpar a casa direito, muito menos lavar a roupa ou passá-la, já que esses serviços precisam ser feitos, e sendo o homem fisicamente mais forte, a exploração da mulher pelo homem tornou-se comum e corriqueiramente se vê a mulher desenvolvendo as tarefas domésticas sozinhas, embora não esteja sozinha na casa. O curioso é que a humanidade vive hoje na "modernidade" e ainda vemos essas práticas tão comuns quanto há milhares de anos.

Muitas vezes a mulher tem um emprego onde cumpre a sua jornada de trabalho como qualquer outro trabalhador, mas quando chega em casa não escapa de cumprir mais uma jornada de trabalho, porque ali encontra filhos, marido, enfim, uma casa necessitando da sua atenção. E a mulher além do seu emprego, trabalha também cozinhando para o marido e as crianças, como se os filhos fossem só da mulher, porque o homem não tem (ou pelo menos não demonstra) tanta responsabilidade para com os próprios filhos.

Em uma família em que tanto o homem quanto a mulher trabalham fora de casa, quem toma conta das crianças quando voltam do trabalho? Quem prepara a comida? Se o horário laboral nos impede de comparar a questão da comida, pensemos quem cozinha nos finais de semana? Quem varre a casa, quem passsa e lava a roupa, mesmo hoje tendo-se a facilidade de uma máquina que lava e seca as roupas? Existem exceções, é claro, mas na maioria dos casos a mulher sofre esse tipo de exploração e até mesmo pior.

Muitas vezes a mulher além dessas explorações já citadas, chega a ser quase uma escrava sexual, onde acha-se que devem as mulheres ter a obrigação de dar prazer aos seus homens, mesmo não estando com vontade de fazer sexo. Em ocasiões como essas a mulher geralmente é obrigada a ceder e entregar-se totalmente ao seu homem. Em outras ocasiões, por motivos que nunca se justificarão, a mulher chega a ser espancada, o que já chega a ultrapassar o limite da exploração e do desrespeito.

No entanto a mulher sofre esses tipos de agressão, sejam físicas, verbais, mentais, morais, e o mundo não se dá conta disso. Até quando seguiremos calados diante da violência que sofre a mulher? Será que a maioria dos homens não reconhece o outro sexo como a versão feminina de si mesmo? Será que a maioria dos homens não reconhece a mulher como um ser humano tanto quanto eles mesmos?

A sociedade como um todo vê a mulher como um ser inferior. O Código Comercial Brasileiro - criado em 25 de junho de 1850 e substituído pelo Código Civil brasileiro promulgado em 10 de janeiro 2002 - dizia em seu artigo 4 que "As mulheres casadas maiores de 18 (dezoito) anos, com autorização de seus maridos para poderem comerciar em seu próprio nome, provada por escritura pública. As que se acharem separadas da coabitação dos maridos por sentença de divórcio perpétuo, não precisam da sua autorização." Podemos aceitar, com um certo incômodo, que em meados do século XIX se impusesse tal submissão à mulher, mas que apenas no século XXI tenha sido corrigido esse erro, é inaceitável.

O mundo ainda é - infelizmente - o mundo dos homens: sociedades com comportamento machistas com instituições igualmente machistas onde as melhores oportunidades - tanto de cargos quanto de salários - aparecem para os homens, demonstrando grande preconceito. E apesar de todo esse quadro desfavorável, a mulher vem conquistando o seu espaço. Ainda não vivemos de maneira igual no mundo dos dois sexos, e se por um lado reconhecemos que já avançou bastante, por outro temos que admitir que ainda falta muito por avançar.

Apesar de todo o preconceito, a mulher vem conquistando espaço na sociedade, uma sociedade machista. E quem detém algum tipo de poder, não o entrega por bondade. A mulher, vem hoje ocupando espaços de destaque, não porque o homem lhe cedeu esses lugares, mas vêm conquistando-os por seus próprios méritos.

Não se trata de ocuparem cargos que os desempenham tão bem que ninguém percebe que estão sendo desempenhados por mulheres. Esse pensamento é muito machista. Trata-se definitivamente de desempenharem suas funções com as características e realidades peculiares às mulheres, sem que essas características ou peculiaridades atrapalhem o seu desempenho. Essa tem sido a marca registrada das mulheres que estão avançando e ocupando seus espaços.

E de salto alto!

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Comportamento que o mundo não aceita


Ser homossexual é, no mínimo, ter que viver em condições que o mundo ainda não aceita.

Não são poucas as pessoas que acham a homossexualidade uma "safadeza". E gastam boa parte de suas vidas a combater a homossexualidade e por extensão os homossexuais, como se eles fossem os culpados pela imoralidade que existe no mundo. Via de regra, essas mesmas pessoas que se "alistam" nas cruzadas contra os homossexuais, não se indignam quanto às práticas pedófilas, à fome, à miséria, à corrupção, etc. que não são poucas e que ocorrem em todo o planeta.

Se uma adolescente de 15 ou 16 anos se insinua a um homem e ele não a "corresponde", a virilidade dele estará em xeque. É comum que o ato seja consumado. É claro que ele se defenderá dizendo que não a estava molestando. Numa inversão de valores, dirá que ela é a responsável por tudo, uma vez que ela o provocou. O que poderia se esperar? "Afinal de contas eu sou homem. Não resisto a alguém me excitando!" Pura hipocrisia. Um homem é capaz de controlar os seus instintos.

Na verdade, essa é a desculpa mais esfarrapada que um canalha pode dar. Em situação semelhante, em que, não uma adolescente, mas um homossexual adulto se insinue ao mesmo homem, é comum ter como reação o espancamento. E também comum será a desculpa aceita como se fosse normal: "Eu sou homem. O meu negócio é mulher, não é viado não!"
E mais comum ainda será o homossexual aceitar o espancamento como um comportamento normal entre duas pessoas adultas. E o que poderia ele fazer? Recorrer a instituições cuja maioria delas é dirigida por homens, héteros e machistas? Só lhe serviria para ser publicamente humilhado.

Afinal de contas, ser homossexual é ser diferente? Claro que é! Levando-se em consideração que a maioria das pessoas é heterossexual, a minoria é sempre vista como "diferente", o que não significa dizer que são uma aberração, pela forma como são tratados pela mesma sociedade que os diz com direitos iguais aos dos heterossexuais. São marginalizados pela mesma sociedade que em tese combate o preconceito e cria leis de repressão à homofobia.

O preconceito contra os homossexuais existe e é grande. Desde sempre os gays são destratados, para não dizer mal tratados. Têm mais dificuldade para conseguir um emprego e também - quando se toma conhecimento da sua orientação sexual - de mantê-lo. Exemplo disto são os milhares de casos de militares norte americanos que receberam suas baixas por se tomar conhecimento de que eram gays.

As amizades são muito duvidosas. Nem todo mundo quer ser visto como um amigo de homossexuais, por temer ser “confundido” e a sua orientação sexual ficar sob “suspeita”. Talvez por isso os homossexuais encontrem maior receptividade quanto à amizade no sexo oposto.

Por serem diferentes, por serem hostilizados exatamente por outros homossexuais, porém “enrustidos”, pessoas que não se aceitam verdadeiramente como são, e sentem a necessidade de combater os homossexuais assumidos.

Mas, a sociedade hipócrita, não combate nem faz chacota de Santos Dumont, Leonardo Da Vinci, Burle Marx, Elton John, Platão, Sócrates, etc. porque seria o mesmo que negar suas genialidades. Muitas vezes chegam a negar que essas pessoas foram homossexuais, numa atitude como a de quem quer proteger seus heróis de qualquer insulto, como se homossexual fosse insulto. Agem de forma inversa, atribuindo a homossexualidade a heterossexuais cujas personalidades apresentam desvios de conduta e rejeição geral, como Hitler.

Ser homossexual é, no mínimo, ter que viver em condições que o mundo ainda não aceita. Mas um homossexual é tão diferente quanto um canhoto, com a diferença de que o canhoto não é combatido pela sociedade, não perde empregos, não é espancado, não é tratado como um marginal.

Na Ópera do Malandro, Chico Buarque compôs, com maestria, Geni e o Zepelim que mostra a hipocrisia de toda uma comunidade que se vê dependendo de Geni para salvar toda a cidade atendendo ao capricho de um poderoso comandante que ameaçava tudo explodir. A maldade e hipocrisia, não seriam tão bem retratados se Geni não fosse um homossexual.

Joga pedra na Geni/ Joga bosta na Geni/ Ela é feita pra apanhar/Ela é boa de cuspir/ Ela dá pra qualquer um/ Maldita Geni.


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Tecnologia Excessiva

A tecnologia já é parte integrante de nossas vidas. A simples hipótese de ficarmos sem o celular, a internet ou até mesmo o antigo e prático controle-remoto da TV, já nos deixa desconfortáveis.

Podemos conviver com a falta de água por cinco horas, mas a falta de luz por quinze minutos é suficiente para desnortear uma família inteira. Ouvimos frases do tipo: ‘tinha que ser agora? Eu estava teclando com minha melhor amiga’ ou ‘na hora do futebol!’ e até ‘minha novela preferida, porque não falta luz de madrugada?’

É interessante como somos dependentes desses aparelhinhos e quando ficamos sem eles, não sabemos o que fazer. Falta-nos a criatividade para recorrer a outro expediente que resolva o problema imediato. O telefone público, bem embaixo do nosso nariz, nada significa quando acaba a bateria do celular. As brincadeiras em família quando ficávamos sem energia elétrica, ficam esquecidas e no seu lugar vem a indignação.

É assustador quando analisamos friamente a quantidade de parafernália tecnológica da qual dependemos e que não existiam há bem pouco tempo.





Um exemplo disso foi à situação pela qual tive que passar; a chuva incessante e o horário, me obrigaram a pegar um táxi dias atrás. Arrependi-me, deveria ter vindo de ônibus. Entrei no veículo e indiquei o caminho. Nesse momento o motorista ligou o carro e me senti dentro de uma nave espacial.

O painel do carro possuía uma complexa infinidade de comandos para ativar todas as lusinhas e néons; fundo verde e luzes alaranjadas, como se não fosse o bastante, havia um console entre os bancos dianteiros, com outra infinidade de inutilidades brilhantes. O rádio ligado, noticiava algo que eu não conseguia ouvir porque se confundia com a voz de uma moça do rádio-taxi que dizia números ininterruptamente.

O celular do condutor tocou no meio dessa confusão sonora, e ele falou com alguém por cinco minutos. Grudado ao console um GPS.

Os limpadores de pára-brisa ligados, devido à chuva intensa, a moça-rádio-taxi tagarelando sem parar, o condutor mudando a estação do rádio em busca de novas notícias e seus olhos alternando, como se estivesse vendo um filme legendado, entre as curvas acentuadas e o GPS, me fez pensar que estava sendo abduzida.





Essa situação nos leva a refletir sobre a real necessidade de tanta tecnologia em um espaço tão pequeno e principalmente, se ajuda ou atrapalha. Fiquei na dúvida, tive impulsos de pegar o volante e desligar todos os controles inúteis, tendo em vista que bastava ao condutor saber para onde eu estava indo, nada mais.

A respiração profunda e compassada me manteve calma durante a viagem e se eu pudesse, depois da corrida, iria passar uma semana inteira no campo, não só para desligar a inutilidade, mas também para sentir o prazer de uma vida simples onde a natureza é tudo que precisamos. Podemos saber se vai chover com a movimentação dos pássaros, acordamos quando o dia esta clareando e dormimos quando escurece. Se tivermos fome, basta pegar na horta ou plantação o alimento natural.

Voltar no tempo de vez em quando, nos torna livres, menos estressados e de ótimo humor.



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Queda do dólar: sinais de cansaço


O dólar vem caindo dia a dia desde março. As quedas não são acentuadas, mas são gradativas deixando o valor do dólar sempre apontando para baixo, o que pode significar não uma flutuação, mas uma contínua e leve queda. O que acontece é que essa "leve queda" vem persistindo dia após dia. Há os seus dias de alta, não podemos negar, mas depois vem outra maré de baixa e não apenas anula a alta que teve como coloca-o em um patamar mais baixo do que antes. E assim segue o dólar lentamente descendo a ladeira.

O dólar não é apenas a moeda corrente dos EUA, o dólar é também uma mercadoria. Toda vez que uma pessoa resolve comprar ou vender dólar, ele deixa de ser moeda e assume o papel de mercadoria. E além de ser a moeda norte americana e mercadoria, o dólar é também a base de um sistema monetário internacional, responsável por quase todas as transações comerciais feitas no mundo.

No entanto, o sistema monetário internacional baseado no dólar começa a fazer água. Lentamente alternativas vão sendo desenvolvidas. A primeira delas foi a criação da moeda única do Mercado Comum Europeu, sendo também a mais forte. Lentamente alguns países começaram a fazer as suas experiências, a exemplo de Brasil e Argentina que decidiram comercializar utilizando suas moedas, ou seja, o país exportador paga na moeda do país importador. Exemplos como esse começaram a ser vistos em outros lugares, principalmente nos acordos com a China.

Quando pensávamos que a Unasul já estava prestes a lançar sua moeda única, a ALBA se adianta e lança o Sucre, sistema virtual de pagamento para o intercâmbio intra-regional que busca substituir o dólar nas transações comerciais entre os países membros. Após a sua implementação, que será gradual, os países da Alba (Bolívia, Cuba, Equador, Venezuela, Dominica, Antigua e Barbuda e São Vicente e Granadinas) pretendem aplicar, ainda sem data definida, uma moeda comum, assim como o euro na Europa.

Todas essas alternativas tiram, com certeza, um pouco da força do dólar, mas a mais forte e talvez até bombástica foi a decisão anunciada até com um certo exagero pelo britânico The Independent, sob o título "The demise of the dollar" (A extinção do dólar), onde afirma que "árabes do golfo estão planejando - junto com a China, Rússia, Japão e França - deixar de usar o dólar nas transações que envolvam petróleo, mudando para uma cesta de moedas inclusive o iene japonês e yuan chinês, o euro, ouro e uma nova moeda unificada planejada para as nações do Conselho de Co-operação do Golfo, incluindo Arábia Saudita, Abu Dhabi, Kuwait e Qatar."

Esse, se concretizado, será um verdadeiro "baque" para o sistema monetário mundial baseado no dólar. A moeda tenderá a se desvalorizar, ocasionando uma inflação nos EUA, e consequentemente, uma elevação do preço dos produtos estadunidenses (para não dizer um processo inflacionário). O que não significa dizer que terminantemente haverá um colapso hiperinflacionário.

Mas daí a dizer que o dólar está em seu leito de morte, é um grande exagero. The Independent não leva em consideração que para que o sistema financeiro atual morra, outro tem que substituí-lo. E não temos - pelo menos até agora - uma moeda capaz de substituir monetariamente o dólar. O euro é a moeda que mais reúne condições para isso, mas ainda está muito aquém, uma vez que a região do euro
possui altos déficits fiscais e endividamento.

Por outro lado a China dá mostras de querer desenvolver mercados financeiros com liquidez, mantendo a economia desses mercados sob o controle da economia chinesa. É o natural: é a necessidade junto com a falta de espaço, que obriga a países em grande desenvolvimento a crescer para dentro da economia de outros, tomando assim os mercados que antes pertenciam a esse outro, não sem antes uma guerra econômica entre os controladores de mercados.

Apesar de Robert Fisk afirmar que o dólar está em seu leito de morte, particularmente acho que o perigo do colapso do dólar é pequeno porque sua substituição por outra moeda é ainda menor. A tendência é a de que se use várias moedas nas diversas transações do mundo inteiro, inclusive o dólar, sob vários sistemas financeiros. O reinado do dólar está perto do fim, mas não significa que seja um rei moribundo.

As diversas economias ao redor do mundo têm seu lastro em dólar, o que significa que se o dólar "morrer", como anuncia Robert Fisk, os países mais ricos do mundo quebram. É claro que deve haver uma mudança. A própria cesta de moedas propostas pelos árabes do golfo e Cia. é uma saída, mas só faz sentido se uma das moedas contidas nela, for o dólar, porque até mesmo os árabes, a China, o Japão, etc. têm muitos dólares. Será que alguém tramaria contra o dinheiro que conseguiu ganhar, dinheiro esse que representa o desenvolvimento do próprio país?
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Fórmula para o caos


Recentemente eu escrevi para o Olhar Analítico o texto “Bolsa Esmola”, onde eu defendi a validade do programa Bolsa Família para a diminuição dos problemas de pobreza no Brasil. E a boa notícia é que, além da minha mãe, descobri que um outro leitor leu o que escrevi e – melhor ainda – deixou um recado, um comentário.


O leitor foi o Aroldo Magno de Oliveira, que argumentou que, apesar da eficiência do programa federal, “não há nenhum projeto político nos últimos governos que visem concretizar a necessária revolução econômica”. E ele me fez também a seguinte questão:


- Quando ingressaremos no processo de derrocada do capitalismo em nosso país?
E eu achei muito pertinente a questão do Aroldo, afinal eu, ele e muitos outros que passam por esse blog concordam que o “instinto animal do empresário” não deveria ser para sempre a força que move o mundo, ou seja, somos favoráveis a um mundo diferente, um mundo socialista. Mas o que tudo isso tem a ver com o título “Fórmula para o caos”?


Esse é o título de um dos muitos livros de um grande pesquisador e autor brasileiro, chamado Luiz Alberto Moniz Bandeira. O autor viveu no exílio durante o regime militar do Brasil e passou vários anos pesquisando a realidade da América Latina, a sua História recente e a questão do Imperialismo.


Até hoje ele vive na Alemanha, onde conquistou grande reconhecimento pela sua obra, sendo que já recebeu até o reconhecimento oficial do Estado alemão em consideração à sua infatigável pesquisa. Pesquisa essa que, em grande parte, foi realizada no centro do Império, nos arquivos de Estado em Washington, EUA.


Recomendo a quem se interessa pela História e pela discussão sobre o encaminhamento da “derrocada do capitalismo” as obras desse autor, com destaque para o livro “Fórmula para o caos”, que aborda a derrubada de Salvador Allende, no Chile em 1973. O autor tem uma visão de conjunto impressionante sobre esse evento e foge completamente do maniqueísmo em sua análise.


O livro de Moniz Bandeira aborda vários fatos que todos os que são da esquerda já sabem a respeito do golpe. Foi um movimento conjunto em que os setores civis da extrema direita mobilizaram o Exército, contando com a supervisão e investimento do governo dos EUA, com destaque para a CIA e o envolvimento direto de Henri Kissinger. Também foi importante a participação das corporações norte-americanas, que depois do golpe transformaram o Chile no primeiro laboratório da economia neoliberal do mundo.


Contudo, Moniz Bandeira deixa muito claro o papel quase colaboracionista da extrema esquerda no golpe. No livro, fica claro como a extrema esquerda causou pânico nas ruas ao desfilar com as suas milícias operárias. Também ficou claro no livro o papel desse campo na questão legal, pois os grupos populares extremistas realizavam a Reforma Agrária no campo, apesar de não contarem com as mudanças legais. Fizeram a Reforma Agrária no Chile, sem a autorização de Allende. E este apenas contemporizava, afinal ele dependia do apoio desses grupos para manter a Unidade Popular, a frente governista.


Allende chegou ao governo do Chile com aproximadamente 30% dos votos em 1970. E, mesmo não contando com a vontade da maioria, declarou que levaria o país ao socialismo. Pensou que a burguesia, não se importaria em entregar o seu patrimônio a um Estado socialista. Allende cria em um “socialismo com empanadas”, que, para quem não sabe, é um salgado típico do país.


É impressionante como ele não cogitou a reação, ele acreditava que o Chile era um país “diferente” da América Latina, pensava que os militares chilenos eram legalistas. Apesar de atuar sempre no campo legal, Allende dependia dos grupos da extrema esquerda para manter a sua frente de governo em ação. Mas foi vítima do mesmo campo, afinal a extrema esquerda propunha que o Socialismo seria alcançado no Chile através de um conflito armado em que os trabalhadores venceriam.


Essa extrema esquerda, com destaque para o Senador socialista Carlos Altamirano e o MIR – Movimiento de La Izquierda Revolucionária gerava atos que desautorizavam o governo de Allende, geraram pânico na burguesia e na classe média. E é lógico, para “sanar” esse pânico é que surgiriam as milícias fascistas da extrema direita. Esse jogo pesado fortaleceu a conservadora Igreja Católica, deu as justificativas para atos de sabotagem econômica por parte dos empresários.


De seu lado, o radical Carlos Altamirano e o MIR garantiam que segurariam a reação das Forças Armadas. Na prática, sabemos que a História foi outra. Allende foi derrubado do governo, o Chile foi metido em um banho de sangue, as forças de origem popular foram arrasadas.


O radical Carlos Altamirano fugiu do país escondido no interior de um carro, providenciado pelos serviço secreto de Erich Honnecker, o líder da então Alemanha Oriental. Quase todas as outras lideranças políticas foram brutalmente torturadas e assassinadas. E Allende se suicidou no interior do Palácio de La Moneda em 1973.


A minha conclusão é que é fácil propor uma solução rápida para levar países como o Brasil a um regime socialista, a prática é outra. Hoje eu valorizo mais a democracia e a possibilidade de fazer avançar o nosso país em termos sócio-econômicos. Acho que o Socialismo é um projeto mais de médio a longo prazo, que só será alcançado com o país em um estágio superior de desenvolvimento. E acho também que as nossas burguesias percebem isso. E é por isso que elas tendem a preferir que o Brasil continue sendo um país com “complexo de vira lata”, descrente em um futuro melhor. Pura covardia.


Por fim, sou partidário do pensador Antonio Gramsci. Ele mostrou que existem possibilidades de o Socialismo ser alcançado democraticamente, mesmo que um monte de gente questione “qual” seria a Democracia citada por ele. Isso é tema para uma discussão mais aprofundada.



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