Fórmula para o caos


Recentemente eu escrevi para o Olhar Analítico o texto “Bolsa Esmola”, onde eu defendi a validade do programa Bolsa Família para a diminuição dos problemas de pobreza no Brasil. E a boa notícia é que, além da minha mãe, descobri que um outro leitor leu o que escrevi e – melhor ainda – deixou um recado, um comentário.

O leitor foi o Aroldo Magno de Oliveira, que argumentou que, apesar da eficiência do programa federal, “não há nenhum projeto político nos últimos governos que visem concretizar a necessária revolução econômica”. E ele me fez também a seguinte questão:

- Quando ingressaremos no processo de derrocada do capitalismo em nosso país?
E eu achei muito pertinente a questão do Aroldo, afinal eu, ele e muitos outros que passam por esse blog concordam que o “instinto animal do empresário” não deveria ser para sempre a força que move o mundo, ou seja, somos favoráveis a um mundo diferente, um mundo socialista. Mas o que tudo isso tem a ver com o título “Fórmula para o caos”?

Esse é o título de um dos muitos livros de um grande pesquisador e autor brasileiro, chamado Luiz Alberto Moniz Bandeira. O autor viveu no exílio durante o regime militar do Brasil e passou vários anos pesquisando a realidade da América Latina, a sua História recente e a questão do Imperialismo.

Até hoje ele vive na Alemanha, onde conquistou grande reconhecimento pela sua obra, sendo que já recebeu até o reconhecimento oficial do Estado alemão em consideração à sua infatigável pesquisa. Pesquisa essa que, em grande parte, foi realizada no centro do Império, nos arquivos de Estado em Washington, EUA.

Recomendo a quem se interessa pela História e pela discussão sobre o encaminhamento da “derrocada do capitalismo” as obras desse autor, com destaque para o livro “Fórmula para o caos”, que aborda a derrubada de Salvador Allende, no Chile em 1973. O autor tem uma visão de conjunto impressionante sobre esse evento e foge completamente do maniqueísmo em sua análise.

O livro de Moniz Bandeira aborda vários fatos que todos os que são da esquerda já sabem a respeito do golpe. Foi um movimento conjunto em que os setores civis da extrema direita mobilizaram o Exército, contando com a supervisão e investimento do governo dos EUA, com destaque para a CIA e o envolvimento direto de Henri Kissinger. Também foi importante a participação das corporações norte-americanas, que depois do golpe transformaram o Chile no primeiro laboratório da economia neoliberal do mundo.

Contudo, Moniz Bandeira deixa muito claro o papel quase colaboracionista da extrema esquerda no golpe. No livro, fica claro como a extrema esquerda causou pânico nas ruas ao desfilar com as suas milícias operárias. Também ficou claro no livro o papel desse campo na questão legal, pois os grupos populares extremistas realizavam a Reforma Agrária no campo, apesar de não contarem com as mudanças legais. Fizeram a Reforma Agrária no Chile, sem a autorização de Allende. E este apenas contemporizava, afinal ele dependia do apoio desses grupos para manter a Unidade Popular, a frente governista.

Allende chegou ao governo do Chile com aproximadamente 30% dos votos em 1970. E, mesmo não contando com a vontade da maioria, declarou que levaria o país ao socialismo. Pensou que a burguesia, não se importaria em entregar o seu patrimônio a um Estado socialista. Allende cria em um “socialismo com empanadas”, que, para quem não sabe, é um salgado típico do país.

É impressionante como ele não cogitou a reação, ele acreditava que o Chile era um país “diferente” da América Latina, pensava que os militares chilenos eram legalistas. Apesar de atuar sempre no campo legal, Allende dependia dos grupos da extrema esquerda para manter a sua frente de governo em ação. Mas foi vítima do mesmo campo, afinal a extrema esquerda propunha que o Socialismo seria alcançado no Chile através de um conflito armado em que os trabalhadores venceriam.

Essa extrema esquerda, com destaque para o Senador socialista Carlos Altamirano e o MIR – Movimiento de La Izquierda Revolucionária gerava atos que desautorizavam o governo de Allende, geraram pânico na burguesia e na classe média. E é lógico, para “sanar” esse pânico é que surgiriam as milícias fascistas da extrema direita. Esse jogo pesado fortaleceu a conservadora Igreja Católica, deu as justificativas para atos de sabotagem econômica por parte dos empresários.

De seu lado, o radical Carlos Altamirano e o MIR garantiam que segurariam a reação das Forças Armadas. Na prática, sabemos que a História foi outra. Allende foi derrubado do governo, o Chile foi metido em um banho de sangue, as forças de origem popular foram arrasadas.

O radical Carlos Altamirano fugiu do país escondido no interior de um carro, providenciado pelos serviço secreto de Erich Honnecker, o líder da então Alemanha Oriental. Quase todas as outras lideranças políticas foram brutalmente torturadas e assassinadas. E Allende se suicidou no interior do Palácio de La Moneda em 1973.

A minha conclusão é que é fácil propor uma solução rápida para levar países como o Brasil a um regime socialista, a prática é outra. Hoje eu valorizo mais a democracia e a possibilidade de fazer avançar o nosso país em termos sócio-econômicos. Acho que o Socialismo é um projeto mais de médio a longo prazo, que só será alcançado com o país em um estágio superior de desenvolvimento. E acho também que as nossas burguesias percebem isso. E é por isso que elas tendem a preferir que o Brasil continue sendo um país com “complexo de vira lata”, descrente em um futuro melhor. Pura covardia.

Por fim, sou partidário do pensador Antonio Gramsci. Ele mostrou que existem possibilidades de o Socialismo ser alcançado democraticamente, mesmo que um monte de gente questione “qual” seria a Democracia citada por ele. Isso é tema para uma discussão mais aprofundada.



5 comentários

Sissym disse...

Ricardo,

Primeiro, desculpa, eu lembro ter lido o texto "bolsa esmola" pensei ter comentado;

O seu texto foi muito interessante e vou procurar saber mais a respeito, mediante sua indicação.

Uma das coisas que aprendi sobre História, que aprendemos jovens e entendemos somente quando adultos, já na fase de sobrevivencia mesmo!ingic

Bjs

Mariana Grande Cobián disse...

Muito bom artigo, Ricardo. Acho que, às vezes, pelo menos aqui, todo mundo quer mudar as coisas num segundo e isso nao é possível por isso também nao é possível solucionar problemas quando já os temos. É preciso ir aos poucos para ter bons resultados.
Hoje em dia me custa muito pensar o socialismo, acho que pode existir alguma coisa parecida, mas acho que esse tipo de conceitos foram mudando e evoluindo. Por exemplo, me parece esquisito que o PSOE (na Espanha) seja o partido dos trabalhadores, mas é verdade que sao mais socialistas do que o PP, sem dúvidas.

A gente sempre pode aprender com você.

JefCor disse...

Socialismo sempre será algo utópico enquanto as pessoas continuarem sendo diferentes entre si e em termos do saber como procurar e, eventualmente, encontrar a felicidade que pretendem.
Estas diferenças são a essência da vida. O fato de eu querer uma coisa para ser feliz e você querer outra coisa para ter a sua felicidade deve ser preservado. Imagine agora que entre nós se instala um governo socialista que passa ditar as regras do que ambos devemos fazer para sermos felizes. Será o caos. Os países que tentaram ser socialistas via comunismo fizeram as maiores merdas no mundo. Outros, como Suécia por exemplo, atingiram estágios mais elevados socialmente falando mas não necessariamente são felizes porque o índice de suicídio é elevadíssimos sugerindo, desta forma, que a coisa não é tão boa assim.
Eu tenho nojo de qualquer proposta socialista. Acho que as diferenças devem ser consideradas e preservadas para o bem de todos.
Especificamente quanto ao Chile, não se pode esquecer que foi Pinochet que criou a constituição e as bases da economia chilena que fizeram com que o Chile seja o que é hoje.
Especificamente quanto a Cuba não se pode esquecer que foi Castro quem implantou o governo socialista lá existente, desde 1958, que destruiu o país e o fez parar no tempo talvez para sempre, caso a ditadura continue com o irmão do dito cujo.
Àqueles que imaginam que o futuro do mundo será o socialismo peço que raciocinem melhor e parem de achar que o "capitalismo selvagem" é o responsável por todas as mazelas do mundo, não é. Ao invés de implantar bolsa família que irá criar com o tempo um bando de miseráveis que não precisa trabalhar para sobreviver, que não sabe competir e que não sabe dar valor àquilo que conquista, este governo devia usar esta verba para combater a corrupção, a violência e outras coisas que efetivamente prejudicam a sociedade. Isto iria gerar emprego, salários e esperanças para todos nós.

LL disse...

Muito interessante o texto. Não conhecia Vianna Moniz enquanto historiador, apenas vagamente como revolucionário e homem que se opôs ao regime totalitário no Brasil. Por curiosidade, pesquisei sobre a sua obra e fiquei fascinada.
Parabéns.
Abraços
Luísa

Ricardo Melo disse...

Nossa, gente, a minha mãe vai ficar super orgulhosa quando eu contar que já recebi 4 comentários para o meu texto.

Sissym, muito interessante isso que você escreveu sobre o aprendizado da História no decorrer da vida, grande sacada. Grande abraço.

A Mariana, para quem não sabe, é argentina e escreve a nossa língua com uma facilidade que é uma beleza. E além de ter um blog maravilhoso é bastante indulgente comigo. Obrigado.

JefCor, concordo com você que as diferenças são inevitáveis e fazem parte indissolúvel da espécie humana. Daí, a única observação que eu tenho a fazer é que simplesmente não precisamos valorizá-las. Se for para valorizar um atributo, eu preferiria escolher a diversidade. Obrigado pelo comentário.

Luísa, o Luiz Alberto Moniz Bandeira é um caso típico daqueles “patrimônios nacionais” que poucos brasileiros conhecem e valorizam. Vários livros dele estão disponíveis na praça, tem um sobre a influência dos EUA nas relações entre Brasil e Argentina, tem um contando a História de Cuba. Todos sensacionais, como o Fórmula para o Caos. Mas tem um que é fundamental para os latino-amerianos. É o Formação Do Imperio Americano - Da Guerra Contra A Espanha A Guerra No Iraque. Tudo que tiver relevância sobre o Império está lá. Talvez eu escreva sobre esse livro no próximo post. Obrigado pela participação.