O "Bolsa Esmola"


Uma das coisas que mais me fascinam é a construção dos ditos sensos comuns, principalmente aqueles que são muito divulgados apesar de serem comprovadamente mentirosos.

E podem ter certeza, impera nas classes média e alta do Brasil o senso comum de que os habitantes do “andar debaixo” da sociedade são os menos dotados de espírito cívico e ético.

Como assim? É isso mesmo. Veja por exemplo a Luciana Hippolito, um dos maiores destaques da CBN, a rádio que “troca” notícia. Ela afirma que a participação da classe média no processo político é fundamental. Até aí, nada a discordar. O problema acontece quando ela explica o porquê dessa importância. Segundo ela, o grande problema do Brasil é que nele existe uma ampla camada de pessoas extremamente pobres e, portanto, vulneráveis às políticas “assistencialistas” ou “populistas”. Ou seja: no Brasil, os pobres tendem a “vender” o seu voto.

Então, vamos entender esse “raciocínio”: o Brasil é ainda um dos países campeões da desigualdade no mundo todo, o “andar de cima” concentra a maior parte da renda nacional e deixa poucos recursos para os mais pobres. E, apesar disso tudo, combater a fome e a pobreza é “populismo”. E as classes média e alta não têm nada a ver com nada dessa estória. Certo...

Na verdade, o Bolsa Família não é um programa de “compra de votos”, não tem semelhança com a tradicional entrega das “cestas básicas”, feita por lideranças políticas regionais aos mais pobres quando e onde fosse a elas mais “conveniente”, ou seja, nos anos de eleição em seus redutos eleitorais.

No programa do governo Lula, as famílias beneficiadas recebem o recurso em dinheiro e precisam cumprir condicionalidades, como a freqüência dos filhos na escola. E mais, os recursos são entregues nas mãos das donas de casa, que são as que melhor respondem às necessidades da família.

Estudos realizados pela Fundação Getúlio Vargas em cima de dados recentes do IBGE mostraram que, entre 2003 e 2008, 31 milhões de pessoas subiram de classe social no Brasil. Desse total, mais de 19 milhões de brasileiros abandonaram a classe E, a mais baixa da sociedade, com renda domiciliar inferior a R$ 768,00.

Foi justamente entre 2003 e 2008 que a classe C (renda domiciliar entre R$ 1.115,00 e 4.807,00) se tornou – pela primeira vez “neste país” – a maior da sociedade, fazendo com que a maior parte da população nacional esteja agora no que se define como “classe média” (em conjunto com a classe B).

E qual seria a participação do Bolsa Família nesse progresso social? Segundo Marcelo Neri, coordenador do Atlas do Bolso dos Brasileiros, “o Bolsa Família é o programa que tem a melhor pontaria para os pobres”. Os programas federais de transferência de renda compunham 4,5% da renda da classe E em 2003. Hoje, esse percentual é quatro vezes maior. E qual seria o resultado disso tudo?

O resultado é que o número percentual de pessoas qualificadas como miseráveis no Brasil caiu de 28,12% em 2003 para 16,02% em 2008. Esses dados demonstram que o Brasil está muito adiantado no âmbito dos Objetivos do Milênio, que propõe a redução da pobreza pela metade até o ano de 2015.

E como se tudo isso não bastasse, economistas e autoridades de todo o mundo já reconheceram que os projetos sociais do governo Lula, puxados pelo Bolsa Família e pelos aumentos do salário-mínimo, foram responsáveis pelo aumento do mercado interno, a grande força que livrou o Brasil do pior da crise econômica global em 2008/2009.

Nesse ponto, gostaria de retomar a questão dos que consideram o Bolsa Família como um projeto corrupto de “compra de votos”. Será que a grande corrupção não seria o abandono dos pobres à sorte do mercado de trabalho? Será que o mercado de trabalho sozinho poderia promover tantos pobres à classe média e transferir todos esses milhões de pessoas da extrema pobreza para uma situação melhor em tão pouco tempo?

Se o leitor ainda tiver paciência, vou abusar mais um pouco. Certa vez, um paraibano que mora aqui em São Paulo me disse que era contra o Bolsa Família. Ele argumentou que esse programa era um incentivo à “vagabundagem”. Até aí, nem preciso dizer que ele é um bem sucedido e pertence à classe-média. E me disse outra coisa, ele me contou que, no interior da Paraíba, ainda é possível se encontrar “empregada” que aceite trabalhar por 50 reais de salário por mês. Isso mesmo, 50 reais, menos de um décimo do salário-mínimo atual.

É aí que eu vi o alcance dramático do Bolsa Família. Dá para imaginar quantas crianças deixaram de trabalhar e foram para a escola justamente porque as suas famílias vão receber mais do que 50 reais por mês? É isso o que a classe média chama de “vagabundagem”: a negativa de muitas famílias miseráveis entregarem as próprias filhas para famílias mais abastadas.

Sempre que alguém vier com essa estória de que o Bolsa Família é um programa “populista” que estimula a “vagabundagem”, você já poderá responder na ponta da língua: o capitalismo é um sistema em que o trabalhador vende a sua mão de obra, tudo bem. Mas, nesse sistema, o trabalhador não é “obrigado” a vender nada, ele vende o seu trabalho livremente e só se considerar que o esforço compensa.

4 comentários

Magno Oliveira disse...

Bastante pertinente o artigo. Entretanto, ainda cabem as perguntas: até quando vai durar o bolsa família? Quando ingressaremos no processo de derrocada do capitalismo em nosso país? Os programs, como o bolsa família, é emergencial, mas vejam que não há nenhum projeto político nos últimos governos que visem concretizar a necessária revolução econômica.

Aroldo Magno de oliveira

Ricardo Melo disse...

Olá, Magno.
Infelizmente eu não sei responder a sua pergunta. É óbvio que eu concordo que um sistema socialista seria melhor do que a economia de mercado.

Por outro lado, nenhum político que chegue ao poder conclamando o rumo ao socialismo conseguirá se segurar na cadeira até o fim do mandato.

Não aguentaria o jogo político, que é muito truculento e estaria exposto a uma escalada golpista.

No plano econômico, não seria mais fácil. Imagine o que os detentores dos meios de produção fariam se um presidente estabelecesse uma meta próxima para o socialismo?

Ocorreria o mesmo que aconteceu no Chile: os empresários suspenderiam os investimentos, o que - lá na frente - geraria menos produção e aumento da inflação. E, com ela, mais crise política.

Ainda lembrando do caso chileno, os empresários iriam gerar greves patronais. Parar a produção, despedir em massa, colocando a culpa "no governo" e - junto com a mídia - manipulando a população.

E o resultado seria esse mesmo: em vez de socialismo, poderíamos ter um governo de direita.

Infelizmente eu acho que o Socialismo é um projeto que não é "conduzido" por grupos políticos. Revoluções acontecem quando um sistema não fica mais "de pé". Na Rússia, Lenin não seria nada se o Czar não tivesse feito a besteira de por o Império em um guerra perdida.

Na Rússia, a Revolução começou com uma derrota militar nos campos da 1ª Guerra Mundial.

Eu acho que, antes de buscarmos por uma "Revolução" no médio e no longo prazo, primeiro temos que fazer desse país uma Nação fortalecida com um projeto de autonomia econômica e política, em direção do desenvolvimento sócio-econômico. Dentro da melhor justiça social possível.

Gostem ou não, para mim uma Revolução é caso mais para efeito do destino e do que ele nos preparar.

Talvez ocorra uma Revolução no futuro quando os recursos naturais estejam tão escassos que a população se desperte e entenda que conter as garras das corporações seja questão de vida ou de morte.

Como você vê, nesse quesito sou pessimista. Mas não tenho certeza de que será necessário um futuro absolutamente sombrio para gerar uma transformação radical em nivel global.

Na verdade do futuro eu não sei nada, só faço suposições.

Mariana Grande Cobián disse...

Si los pobre venden un voto por comida, ¿la clase media lo intercambia para poder seguir pagando las cuotas de las cosas que compra? Eso, por lo menos, fue lo que sucedió en la segunda presidencia de Méndez, que ganó con el voto de la licuadora.

Aroldo Magno de Oliveira disse...

Ricardo e companheiros,

obviamente as suas considerações são pertinentes. Entretanto, é preciso, mais do que nunca, iniciar a caminhada. No Brasil de hoje temos pessoas de alto nível para levar adiante um plano estratégico revolucionário rumo ao socialismo. talvez, este momento histórico é um dos mais importantes para se levar a cabo a proposta socialista, pois não estamos tão sozinhos. Teríamos um grande apoio de Cuba, Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai, Uruguai, Nicarágua e El Salvador. Quer queira ou não, as mãos sujas dos Estados Unidos já não são tão poderosas.