O bom vinho brasileiro e o complexo de vira latas



Há muito tempo eu sou apreciador de vinhos e todos que me conhecem pessoalmente sabem que eu só compro vinho nacional e de qualidade. É lógico, se me oferecem um importado eu tomo, sem qualquer restrição.

Os obstáculos que o vinho nacional encontra pela frente são enormes e eu posso testemunhar isso. Os rótulos mais vendidos no Brasil são os famosos argentinos e chilenos. Dentre os mais vendidos, a grande maioria tem qualidade inferior aos brasileiros razoavelmente qualificados.

É isso mesmo, o vinho brasileiro tem perdido lugar por puro preconceito por parte do consumidor...brasileiro.

E a injustiça nesse campo é enorme. Os bons conhecedores de vinhos finos devem saber do que estou escrevendo.

Qualquer pessoa mais ou menos interessada no tema da enologia sabe muito bem que vinho tinto de qualidade tem que ser "seco", ou seja, não pode ter açúcar adicionado. A adição de açúcar é uma estratégia muito usada para "mascarar" uma vinificação deficiente ou até mesmo uma uva que não tenha atingido boa maturidade.

Pois bem, aí vai a "bomba": grande parte dos vinhos chilenos e argentinos mais vendidos e "famosos" do mercado não são "secos", são "demi-sec" ou "meio seco", "meio doce" ou seja lá como for como preferirem.

Acontece que os rótulos argentinos e chilenos (entre estes os da Concha y Toro e Santa Helena) não têm a obrigação governamental de mostrar claramente se há adição de açúcar ou não. Esse "detalhe" às vezes só aparece nas letras (bem) pequenas do rótulo posterior da garrafa.

Com o vinho nacional, não é assim. No Brasil, o governo estipula que o produtor identifique claramente se o vinho é seco ou não. Esse é apenas mais um aspecto da desigualdade de competição, até o nosso governo é mais "caxias" do que outros. Pelo menos o consumidor do vinho brasileiro não é induzido ao erro, isso é para se valorizar.

Mas é esse o resultado: a grande maioria dos que apreciam vinho, muitas vezes recusam um produto brasileiro de excelente qualidade e levam para casa um vinho estrangeiro "meio seco". E ainda podem acreditar que está levando a melhor opção possível.

E isso não é tudo. Sempre reparo no marketing eficiente dos rótulos estrangeiros no Brasil. Eles conquistam mais espaço nas gôndolas, os críticos sempre ressaltam a qualidade dos importados.

Ainda hoje, "nas boas casas do ramo", os vinhos brasileiros são mais facilmente encontráveis naqueles cantos mais escondidos. Eu brinco com os atendentes e já vou perguntando onde fica o "gueto dos brasileiros" na loja.

A injustiça que se faz contra o bom vinho nacional chega a ser revoltante. Vejamos o caso dos vinhos espumantes. Os bons espumantes brasileiros ganham de longe dos importados. O quesito custo/benefício tende completamente para a escolha dos bons nacionais. Nesse tema, até os franceses sabem que as condições naturais favorecem e muito o Brasil e não é a toa que a Moët & Chandon escolheu há décadas a nossa terra a fim de produzir um excelente produto. Sem falar na excelência de tantas outras marcas legitimamente nacionais.

Quem sabe, quando até a nossa elite se desprender do "complexo vira lata" poderemos ver nas mesas dos restaurantes brasileiros aquilo que vemos nas mesas dos congêneres argentinos, uruguaios, chilenos, franceses e italianos: a predominância do bom e conhecido vinho nacional.

7 comentários

Joselito disse...

Bem, a questão que nem todos tem a condição de comprar bons vinhos, mesmo que sejam nacionais, segundo, a nossa cultura não é para o vinho e terceiro tem realmente o pre-conceito, muitos preferem pagar mais e comprar um "importado", acredita porque é importado é bom ....

Sissym disse...

Cris, eu não sou uma expert. Muitos vinhos brasileiros são delicioso.
Teve um tempo que um chefe meu mandava vir do sul caixas de vinhos e de suco de uvas, eram divinos.
Contudo, eu sei o quanto é dificil a aprovação dos nossos produtos pelo proprio brasileiro. É uma barreira cultural.

Bjs

Lilian disse...

Olá querida amiga Cris,

Adorei seu post.

O texto de Ricardo Melo é excelente.

Sei que o vinho tinto e seco é melhor para a saúde, mas ADORO vinho branco. Já experimentei inúmeros e fixei-me em um, que ganha de todos. Tem o gosto e o cheiro da uva.

E, por sinal é nacional. Depois que descobri esse vinho, compro-o duas a tres vezes durante o ano, diretamente da fábrica. Não sei se podemos falar de marcas livremente, mas, se voces experimentarem o "Vinho de mesa branco suave" da Durigan, não vão querer outro. Já comprei o tinto. Também é muito bom, mas, continuo gostando do branco. E tem mais, é um dos mais baratos.
Comprei no final do ano, três caixas. Cada garrafa, custou R$9,00nove reais). É de Santa Felicidade, em Curitiba.

Aqui no Estado de São Paulo, procuro em todas as grandes lojas e Supermercados e não o encontro.

Quando fui a Campos de Jordão, em 2.008, encontrei uma loja representante do vinho Durigan lá, mas lá,que é uma cidade de veraneio, e a varejo, custava muito caro, o triplo do que pagava diretamente da fábrica.

Fica a sugestão para quem gosta.
Se vierem aqui, poderão tomar um cálice comigo e meu marido. Ficarei muito feliz.

Carinhoso e fraterno abraço,
Lilian

João Poeta disse...

Oh, que bom que posso consumir bons vinhos brasileiros com a garantia de ter boa qualidade e serem bem mais baratos do que os importados.
Obrigado por esse post de conteúdo informativo tão bom quanto aos vinhos brasileiros...
João

Glaldys A. Acuña disse...

Eduardo! ya ves, no pude con mi curiosidad de mujer... lo que significa que só vim expiar.
Y como no tomo vino y no entiendo de vinos, pasé sólo de visita y se ve muito bom!!! jaja!
Nos seguimos viendo!
Cariños.
Gladys.

arte-e-manhas-arte disse...

Eu não conheço o vinho brasileiro. Apenas cachaça. Por azar, não gosto de agua-ardentes! :(

Não posso pronunciar-me quanto à qualidade dos vinhos, mas posso dizer-te que há pessoas que tendem a não valorizar o que produzimos e achar que o que vem de fora é que é bom.

Abraços
Luísa

LSION disse...

Saudações!
Que Post Fantástico!
Amiga CRIS, a matéria do grande Ricardo Melo, é importantíssima, pois, além de levantar o produtor e o produto nacional, oferece-nos alternativas convincentes para darmos prioridade ao vinho nacional. Penso que é mais que correto e se dependesse de mim, assinaria o artigo em tela.
Valeu à pena conferir!
Parabéns por mais um excelente Post!
Contagiou. Mexeu. Valeu.
Abraços,
LISON.